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Maternidade

Mãe

A mãe, enquanto função social, é colocada num pedestal. Ela não deveria errar, não deveria reclamar, não deveria se sentir triste em relação aos filhos, não deveria ter quereres para além da maternidade. Seria um ser mítico que, de tão mítico, esse ser acaba se tornando invisível na sociedade. É um ser que não existe na política, no mercado de trabalho ou na universidade. Esse ser deve permanecer apenas em seu pedestal, que está localizado no lar. Uma deusa que sorri calada em seu lar.
Conheço mulheres que não amaram seus filhos no exato momento do nascimento. Conheço mulheres que não gostam da barriga grande da gestação. Conheço mulheres que têm uma dificuldade enorme em manter diálogo com os filhos por terem pensamentos tão distintos. No entanto, tentam calar essas mulheres porque mãe boa mesmo é aquela que está sempre caindo de amores pelos filhos e vive apenas em função deles.

A VERDADE É QUE NÃO AMAMOS TUDO NOS NOSSOS FILHOS O TEMPO TODO E DESEJAMOS SER MAIS QUE MÃES.

Por quê? Porque somos todos de carne e osso, humanos com sentimentos e emoções que flutuam, mudam e variam. Somos, acima de tudo, pessoas muito diferentes das crias. E, quanto mais eles crescem, mais vemos diferenças. A relação mãe e filho não deveria ser romatizada como é. É uma relação de muito amor para a maioria, mas, como toda relação, a gente sente de tudo por eles também: rancor, ressentimento, frustração, irritação. Acontece que ninguém admite ter sentido raiva do próprio filho, por exemplo. Raiva no sentido de grande irritação. Não falamos sobre isso porque é proibido. Cobram-nos amor 100% do tempo e isso não existe numa relação entre dois seres humanos. Ninguém se ama o tempo todo.
E como ninguém fala sobre sentimentos que não foram vendidos no ‘pacote maternidade’, nos sentimos um grande monstro terrível por, por exemplo, não sentirmos saudade do filho quando ele viaja, é difícil admitir gostar desse tempo consigo mesma, de se sentir bem por poder, uma vez ao ano, dormir até tarde e não se preocupar com a hora do almoço.

Não sentimos saudade de um amigo o tempo todo.
Não sentimos saudade da nossa mãe o tempo todo.
Não sentimos saudade do nosso pai o tempo todo.
Não sentimos saudade dos nossos irmãos o tempo todo.

Por que deveríamos sentir saudade dos nossos filhos o tempo todo? Porque nos venderam esse amor romantizado, exagerado e ilusório que nos faz sentir culpa quando deixamos de olhar um tiquinho pra eles. É como se não pudéssemos exercer qualquer outro papel além da maternidade. É como se tivéssemos nascido apenas pra isso.
A relação mãe e filho não é algo divinizado, de outro mundo ou transcendental. É uma relação como qualquer outra e que cada relação acontece de uma maneira particular. Nós amamos, cuidamos, nos apaixonamos por eles. Num outro dia, eles vão nos aborrecer e vamos sentir raiva. Nada de diferente de qualquer outra relação. Acho que a gente só vai sentir menos culpa quando entender que o amor materno é forte e fascinante, mas não pode ser idealizado. Quanto mais a gente entender que não precisamos seguir um ideal e que esse amor materno é, também, humano, mais leve será nossa maternidade.

Favoritos da Dany
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