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Desarme-se, informe-se e mude se achar possível

É natural que a gente queira defender nossa zona de
conforto. É um lugar quentinho, seguro e a gente quase não percebe que é
machucado ou enganado vivendo lá. A gente já conhece o passo-a-passo, a rotina
e é aceito se continuarmos usufruindo desse lugar. A nossa zona de conforto
também é a morada de um monte de gente. De quase todo mundo, na verdade. A
gente segue sem questionar muito, sem criticar nossas escolhas, sem fazer
acender nenhum debate acerca do que é comum. Muita gente se beneficia dessa
vida na zona de conforto e não somos nós. É interessante que a gente siga alheio
a qualquer informação que chacoalhe nossas escolhas e decisões. É necessário
que a gente siga sem questionar para que o controle seja mantido sobre nós.

Apesar de o fluxo de informações ser intenso nas redes
sociais, fizeram-nos acreditar que qualquer ideia diferente da nossa é não nos
respeitar, é do nosso inimigo, é ofensa pessoal. Isso é uma mentira, claro. E é
exatamente aí que entra o papel da mídia independente e alternativa. Nosso
interesse não é lucrar, mas construir uma sociedade plural, crítica e ativa.
Pra isso, precisamos do livre fluxo de informações sem pré-conceitos ou armas
levantadas. É preciso que a gente olhe pra dentro de si e pro outro despido da
manta competitiva e do véu da rivalidade. As duas nos cegam e criam barreiras
para as possibilidades de um mundo novo e possivelmente melhor.

Ao afirmar que amamentar um bebê é melhor para ele e para a
mãe, não queremos promover competitividade ou segregar as mães. Nós
pretendemos, na verdade, que todas as mulheres confiem em si, no próprio corpo,
na sua força. Desejamos que bebês sejam nutridos com segurança e com o melhor
alimento criado pra eles. Isto não significa dizer que todas as mulheres devem
amamentar a qualquer custo e ignorar a dificuldade de cada uma. Isso significa
dizer o que a mídia não diz. Isso significa confrontar a maior indústria de
leite artificial existente. Isso significa ir contra todo um sistema que te diz
que você não pode amamentar e que também acabou colocando o Brasil em um dos
piores rankings de amamentação exclusiva e prolongada, o que prejudica a saúde
da maioria das crianças a longo prazo.
Isso também acontece com o parto normal. Uma vez que você
fica com uma pulguinha atrás da orelha se perguntando qual foi o caminho
percorrido até chegarmos à geração que praticamente é incapaz de parir
naturalmente (segundo a maioria das indicações), você começa a questionar toda
uma indústria da cesárea que não está interessada em beneficiar mães e bebês,
mas em lucrar. Não cabe aqui o julgamento sobre a qualidade da sua maternidade.
A maioria de nós faz o possível e o impossível para sermos boas mães. E somos.
Não é sobre ser melhor que a outra ou ganhar o troféu ultra-mega-blaster de
parideira. É sobre se perguntar por que chegamos ao ponto de ter 90% de
cesáreas na rede suplementar de saúde se a recomendação da OMS é de 15%. Um
disparate desse tipo precisa ser, no mínimo, repensado. Não é culpa nossa.
Muito pelo contrário. Nós estamos deixando de ser beneficiadas e nossos filhos,
também. É sobre saúde, sobre poder, sobre ter acesso a todo tipo de informação
relevante pra que não nos enganem a ponto de tirarem de nós nosso rotagonismo.
Eu sou a primeira a defender  e a respeitar a mulher e suas escolhas, mas,
antes de mais nada, precisamos saber que nossas escolhas são moldadas pela
mídia, pela indústria e por toda sorte de mensagem que chega até nós,
aparentemente, inofensiva, mas muito eficaz. Quando uma marca de brinquedos
famosa vende milhares de bonecas chupando chupeta, você acredita desde
criancinha que todos os bebês chupam chupeta. Quando uma marca de leite
artificial nos bombardeia diariamente com propagandas na TV, outdoors e posts
patrocinados no Facebook, a gente passa a naturalizar o leite artificial, que
deveria apenas ser usado em casos raríssimos. Quando quase todos os obstetras
do plano de saúde apresentam mais de 90% de cesáreas em seus números e algumas
maternidades glamourizam uma cirurgia desnecessária marcando cineparto, a gente
passa a achar que é uma cirurgia bastante simples e acaba não tendo acesso aos
reais benefícios do parto normal. Quando personagens de novelas aparecem em
cenas de parto normal sofrendo, morrendo e tendo o pior momento de suas vidas,
a mensagem que chega é que parir naturalmente é algo terrível. Eu sou a favor
das escolhas. Sempre serei. Desde que essas escolhas sejam conscientes e que
ultrapassem os limites do que nos é fornecido pela mídia tradicional e pelas
propagandas.
Por favor, desarme-se. Não são julgamentos. Não estamos
competindo. Não se distraia com rivalidade feminina. Enquanto a gente se
distrai brigando e competindo, as corporações estão lucrando e nós, trabalhando
cada vez mais para manter o lucro delas. Defender que um bebê não
necessariamente precisa de chupeta, mamadeira e nascer via cirurgia é mexer com
uma estrutura poderosa de controle sobre nosso corpo e poder. A família de um
bebê que não toma mamadeira deixa de comprar latas e latas de leite artificial,
deixa de comprar mamadeira, esterilizador de mamadeira, escovinha para lavar
mamadeira, aquecedor de mamadeira e, na maioria das vezes, deixa de comprar
muitos remédios porque bebês amamentados podem ser muito protegidos de doenças
diversas. Logo, faz muito sentido para a indústria naturalizar a alimentação
artificial. Amamentar não gera lucro para as empresas, mantém nossos bebês saudáveis e longe da indústria farmacêutica.

Quando escrevo que leite materno é melhor que leite
artificial, não é para gerar brigas desnecessárias. É apenas para que mães acreditem em si e, consequentemente, para que bebês se beneficiem da
amamentação. Relativizar a importância do leite materno, do parto, da
alimentação saudável, do brincar livre apenas potencializa o poder da mídia e
os lucros das corporações. Dada a realidade de cada família, a individualidade
de cada mãe e a necessidade de cada bebê, não podemos descartar assuntos
essenciais que beneficiam seres humanos em prol da manutenção da nossa zona de
conforto. Mudar é desconfortável mesmo. Fazer escolhas conscientes implica em arcar
com riscos e consequências. Questionar informações naturalizadas na sociedade é
ir contra todo um sistema poderoso que, certamente, não visa o nosso bem estar.
Jamais podemos desrespeitar ou ferir o outro, mas é nosso dever lutar por um
mundo melhor para os nossos filhos, para nós e para o meio ambiente. 

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