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Série: Saco de dormir {Prólogo}

Olá! Me chamo Roberta* e vou dormir aqui no Quartinho da Dany durante esse segundo semestre de 2014. Para ficar bem claro que será uma breve passagem, vou ficar no saco de dormir mesmo. Enrolado, no cantinho. Assim, quando outra pessoa precisar, já sabe que pode contar.
Decidi pedir asilo virtual para a Dany porque não tenho disciplina para blogs. Periodicidade na publicação, manutenção do tema, analisar os comentários, responde-los, ser legal com todo mundo: são qualidades dela, não minhas. 
Carrego as minhas bandeiras: proteger as mulheres, proteger as crianças, promover a redução da distância entre o masculino e o feminino através da percepção de que ela não existe de verdade, lutar por relações de trabalho mais justas, buscar o conhecimento de si com o fortalecimento da confiança – no instinto, na intuição, em si mesmo, na religião, onde cada um quiser: é procurando que a gente encontra! 
Esse saco de dormir vai ser usado para contar a minha mais importante cruzada até o momento: parir. Acha que eu exagerei? Pois é, também cometi esse engano na minha primeira gravidez. 
Meu primeiro filho veio de uma gravidez desejada, fruto de uma relação de oito anos de amor e amadurecimento. Escolhi a médica GO Ivana para acompanhar a gravidez do Fabrício. Meu companheiro Flávio foi a quase todas as consultas de pré-natal e ultrassonografias. Minha gravidez foi perfeita, sem intercorrências. A cada consulta Ivana me transmitia mais segurança. Confiei e parei de preocupar. Me sentia tão plena, tão completa, tão feliz que eu era incapaz de imaginar que teria o desfecho que teve. 
(Cresci numa cidade do interior: leia-se menos de duzentos mil habitantes, fora de regiões metropolitanas e distante do litoral. Sempre tive certeza de que seria boa parideira. Minha mãe pariu três, minhas avós e tias avós vaticinavam que o tamanho do meu quadril só se justificava nisso, era o meu destino.) 
Minha bolsa estourou às 3h da manhã. Como não estava sentindo nada, a médica pediu que eu esperasse e só fosse para o hospital às 7h. Quando deu 8h30, Ivana fez toque, disse que eu não tinha passagem, que o parto seria seco, que Fabrício entraria em sofrimento fetal. Chorei copiosamente, mas me entreguei. 
Minha cirurgia foi um sucesso do ponto de vista protocolar. Não caí em nenhum dos riscos que acompanham uma cirurgia abdominal de grande porte, ou seja: incidentes anestésicos, danos aos vasos sanguíneos com grande hemorragia, infecções frequentes, extensão acidental da incisão uterina, danos à bexiga e outros órgãos abdominais, cicatrizes internas e aderências levando a problemas intestinais doloridos e relações sexuais igualmente doloridas. Fabrício não apresentou nenhum dos problemas de uma cirurgia cesárea, ou seja: não sofreu de taquipnéia transitória ou qualquer outro problema respiratório, não nasceu prematuro, não precisou de UTI neonatal e nem foi cortado. Apesar de toda a comemoração de “sucesso” – eu estava bem, Fabrício estava bem – uma vozinha aqui dentro de mim me dizia que algo estava errado. Não sei se era na cabeça, no coração ou no útero, mas meu corpo tentava me alertar de que alguma coisa tinha sido perdida. 
Fomos para casa e demorei umas duas semanas para estabelecer a amamentação exclusiva (agora era questão de honra: já não tinha parido, se não conseguisse alimentar meu filho, nem sei do que seria capaz). Aquela voz, bem, desde pequena nós mulheres aprendemos a ignorá-la. Só reforcei a lição. Segui com minha licença maternidade, depois minhas férias, retornei ao trabalho, curti as festas de fim de ano e pulei carnaval como foi possível com um bebê de quase dez meses em casa. Depois da pajelança carnavalesca, todos aqui em casa tiveram desconfortos gastrointestinais. Passados os dias, todos melhoraram menos eu. Fiz um teste de farmácia e desde então estamos nos preparando para receber a Valéria, que nascerá quando Fabrício estiver com aproximadamente 1 ano e meio. 
Diante da vinda da Valéria, mesmo como todas as amarras, aquela voz berrou dentro de mim, com a força e potência de todas as vozes nascidas e não nascidas desse mundo. 
E assim termina o prólogo e começa a minha cruzada para que Valéria nasça de um parto onde eu e ela tenhamos voz. Dany ficará com o bônus de me deixar dormir no chão. Boa noite! 
*Roberta é um nome fictício, assim como todos os demais nomes citados. Os textos da série “SACO DE DORMIR” são construídos a partir de lembranças, impressões, pontos de vista e/ou opiniões pessoais de sua autora. Por esse motivo, a autora optou por preservar a identidade dos envolvidos.

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