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Por que cesárea humanizada não existe

O termo parto humanizado tem sido usado com muita frequência, mas tem gerado confusões. Há quem pense que humanização do parto é somente sobre tratar a mulher com carinho. É isso também, mas não é só isso. 
No parto humanizado, há três pilares extremamente importantes: 
1. O protagonismo feminino. 
2. O respeito à fisiologia da mulher.
2. O respeito ao recém-nascido. 
No parto humanizado, o obstetra não exerce o papel principal. Seu papel é esperar, monitorar e saber que a mulher é quem é a protagonista. A mulher escolhe a posição que é melhor pra ela, escolhe onde quer ficar (no chuveiro, na cama, na banheira, etc.), escolhe quem vai acompanhá-la, escolhe o que quer comer, beber. Enfim, a mulher dita as regras. Na cesárea, uma cirurgia comandada pelo médico, o papel da mulher é passivo. Não há protagonismo, não há decisão da mulher, quem traz o bebê ao mundo é o médico. 
Respeitar a fisiologia da mulher é dar espaço para o corpo trabalhar, é deixar os hormônios fazerem seu papel, é aguardar a natureza agir e a ocitocina fluir. Na cirurgia cesariana, o corpo não trabalha; ele é anestesiado. Não há movimento, não há natureza agindo. Muitas vezes as mãos das mulheres estão amarradas. 
Respeitar o recém-nascido no momento do nascimento significa aguardar que ele mesmo decida quando nascer. É dar-lhe a chance de ter seu corpo inteiro massageado pelas contrações. É deixar que ele passe pelo canal vaginal para que seu tórax seja comprimido e que isso faça com que os líquidos de dentro do seu pulmão sejam expelidos com mais facilidade, sem necessidade de ser aspirado em sua primeira hora de vida. É permitir que ele se beneficie das alterações hormonais que ocorrem no corpo da mãe durante o trabalho de parto. É colocá-lo imediatamente em cima da mãe, corpo a corpo, para ser acalmado. É deixar que ele mame na primeira hora da sua vida e que seja cuidado por uma mãe que vai se recuperar muito mais facilmente. Numa cirurgia, é difícil que isso aconteça. O bebê será aspirado, muito provavelmente não vai mamar ao nascer e ficará em observação no berçário sozinho. 
É claro que uma cesárea pode ser mais gentil. É claro que durante a cirurgia a mulher pode ser tratada bem (e deve!). No entanto, não há protagonismo, respeito à fisiologia ou respeito ao recém-nascido. É por isso que não existe cesárea humanizada
Imagem retirada daqui
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Comentários

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7 comments
  1. Anônimo

    A participacao nao se resume a estar fisicamente ativa na hora do parto; o estar ativa nesse contexto tem a ver com exercer 'agency'. E ha influencias externas para exercer 'agency': expectativas socio-culturais, apoio familiar/social, parceria com profissionais de saude. A decisao apesar da ser da mulher e' influenciada por vários outros fatores externos a ela – e por isso entendo o fato de muitas mulheres optarem pelo parto cirurgico, pois tem-se a percepcao do controle do processo.

    Também acho injusto o discurso que e' so' uma questao de se informar para querer um parto vaginal. As barreiras (e os facilitadores) estao muito alem do indivíduo. O objetivo da humanizacao e'a redução de procedimentos intervencionistas durante a gravidez (não somente durante o parto), mas não a sua eliminação. Porque vai haver horas que esses procedimentos, como um parto por via cirúrgica, ou utilizacao de forceps/'vacuum' serao necessários.
    Coloco-me a disposição para discussões futuras.

    Atenciosamente,

    Gisele

    PS:Se quiser uma cópia dos artigos em PDF, posso enviá-los para seu emai.

    1. dany

      Oi, Gisele!
      Tudo bem?
      Onde você leu que cesárea não é parto no meu post? Eu escrevi isso? Não é uma pergunta retórica. Acho que não foi no meu blog, não. Se foi, vou procurar direitinho. Você deve ter lido algum outro post e deve estar achando que eu escrevi isso. Não vou entrar nesse mérito agora.
      O próprio trecho que você cita corrobora o que eu estou afirmando: o parto humanizado promove a decisão ATIVA da mulher considerando tomada de DECISÃO . Vamos lá. Quando uma pessoa é ativa, é porque ela exerce ação. No Brasil, o que vemos é a mulher entregando o nascimento do seu filho ao médico, sem participação, sem questionamentos e, portanto, sem tomar decisão. Eu não acredito em escolha sem informação. Escolha baseada em medo e desinformação equivale à imposição. A mulher simplesmente sucumbe. Além disso, o trecho menciona intervenção baseada em evidência. No nosso país, a intervenção no que diz respeito a parto é cesárea. A intervenção já é a própria cesárea. E as indicações são as mais risíveis e, definitivamente, não são baseadas em evidências: circular de cordão, pressão alta, não tem dilatação, bebê grande, etc.
      O exemplo que você cita de cesárea não é eletiva (com data e hora marcadas). É uma cesárea, provavelmente necessária (não sei), intraparto. Cesárea necessária intraparto é essencial. Cesárea salva vidas e não há questionamento quanto a isso. A cirurgia existe para reduzir o índice de morte da mãe e do bebê. O problema da cesárea é quando ela é feita sem nenhum sinal de que o bebê está pronto. Não esperam nem a mãe entrar em trabalho de parto. Com isso, as UTI’s neonatais recebem os bebês com desconforto respiratório, por exemplo, porque o bebê ainda não estava pronto. Todo esse cenário, pra mim, não reflete a humanização.
      Eu nunca falei sobre a eliminação de procedimentos intervencionistas. Eles, se bem aplicados, podem salvar um parto. Uma analgesia bem aplicada numa mulher cansada demais revigora. As equipes humanizadas sabem lançar mão de todos esses procedimentos na hora certa: fórceps, vácuo, analgesia e até a ocitocina. Mas, veja bem, falo de equipe humanizada. Qualquer outra equipe diante de qualquer dificuldade lança mão da cesárea e fim de papo.
      Pra finalizar, quero te dizer que eu não sou médica, não sou da área da saúde. Tudo o que sei eu pesquisei. Estudei muito pra conseguir meu parto (VBAC) porque eu sabia que, sem informação, eu cairia de novo numa cirurgia. Tornei-me ativista. Ativista de sofá, confesso. Aceito o título. Mas, não acho isso ruim. Pratico meu ativismo como posso: escrevendo. O que sei fazer é escrever. A minha intenção é levar informação a quem quer, não minimizar quem passa por uma cesárea. Eu mesma já passei por uma. O que eu quero com o meu ativismo é que mais mulheres lutem por seus partos, que conheçam seus corpos, que saibam que parir não é feio, não é ruim, que entendam que há dor, mas não há sofrimento.
      Estou à disposição para conversar sempre. 🙂

  2. Anônimo

    A humanização do parto não determina que a mulher esteja fisicamente ativa, como você colocou. As características de um parto humanizado são:
    “One which promotes the active participation of women regarding decision making, and other aspects of their own care,
    One which takes advantage of the expertise of both physicians and non-physicians, and allows them to work together as equals,
    One which involves the use of evidence-based technology and medical intervention"
    (Facilitators and barriers in the humanization of childbirth practice in Japan)

    Esse trecho exemplifica muito bem as características de um parto humanizado – uma cesárea:

    Recently, approximately 3 months ago, I was working in the delivery suite of a hospital in West
    London, caring for an African family and we did everything possible to help the mother have a
    normal vaginal delivery. We had her walking around, we rubbed her back, we had her in the
    bath, and we talked to her. We did all those things that midwives do to help women give birth.
    It soon became apparent that in fact this was not going to happen and she was going to need a
    cesarean birth. We called the doctor who came to talk to her. He was a very kind doctor, who sat
    with her and said, ‘I think you’re going to need a cesarean section’. I watched the faces of the
    woman, the sister, the husband and the brother and I saw dismay register on their faces. The
    doctor left the room and I went back to the sister because the mother of the child was breathing
    heavily concentrating on her contractions and I said, ‘Do you understand? Do you feel you have
    been given enough information?’ The sister said very clearly ‘No, we haven’t.’ So I explained on
    my own first and I said that I would bring the doctor back. I went and asked him to come back
    and have some more discussion. He came back and he talked for 5 min to the family and they
    gave their consent to a cesarean birth. Afterwards the sister and mother said to me ‘You have no idea what that meant to us, to have those few more minutes of explanation and discussion.’

    (Page, L.2001.The humanization of birth. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 75: S55-S58)

  3. Anônimo

    Olá Dani,
    Tomei conhecimento de seu blog através de um post de uma amiga minha.
    Acho muito interessante (e importante) que tenhamos o ativismo ‘grassroots’ no Brasil demandando um atendimento mais holístico para gestantes. No entanto, me preocupa a disseminação de informação que não tem embasamento em evidência.
    Por exemplo, quando você fala que cesárea não é parto, tenho que discordar. Parto significa saída do bebê do útero. Na literatura de saúde, os partos (ou vias de parto) sao dividos entre cirúrgicos e vaginais, e muitas vezes veremos profissionais utilizarem a expressão ‘parto cesáreo’. Portanto, ao falarmos que cesárea não e´ parto cometemos um grande erro. Talvez a confusão vem devido ao fato da grande maioria das mulheres que tem parto cirurgico nao entrarem em trabalho de parto, e a percepcao do que é ‘parto’ ser entendida dentro do contexto do parto vaginal.

  4. Micha Descontrolada

    virou uma verdade guerra entre pacientes x médicos x planos de saúde x hospitais…uma loucura isso tdo!!!

    e quem perde é a mulher e o bebê!!!

    Beijossssssss
    ┌──»ʍi૮ђα ツ

  5. Andreia Cristina

    Oi Dany,

    Eu tenho um filho que nasceu através de cesárea, o médico disse que eu não tinha passagem e eu nem questionei. Apesar de pensado num parto normal a gravidez toda eu até gostei do fato de "não sofrer" e não ter que esperar mais para conhecer o meu bebê.
    Hoje eu penso diferente se eu tiver um segundo filho embora não fale a respeito. Falar em parto natural é travar uma luta! Mas eu engravidar novamente pensarei muito dessa vez no nascimento.

    Bj

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