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Afinal, qual é o problema com a Galinha Pintadinha?

Existe um movimento chamado Infância Livre de Consumismo. É um grupo de pais, mães e cidadãos inconformados com a publicidade dirigida às crianças.  É um grupo tocado por mães ativistas em defesa da infância. Para as ativistas, “a publicidade dirigida ao público infantil é danosa porque pressiona as crianças a desejarem cada vez mais bens de consumo, associando-os a um discurso enganoso de alegria, felicidade e status social” (trecho tirado daqui). Criança não tem discernimento para decidir o que consumir ou não. Elas são vítimas.

Nos últimos dias, vi na página do movimento a comemoração pelo 1 bilhão de visualizações da página da Galinha Pintadinha (GP) no Youtube. A frase de comemoração era a seguinte: “Parabéns, Galinha Pintadinha, por deixar as crianças quietinhas 1 bilhão de vezes”. De uma forma bastante inteligente, o Infância Livre de Consumismo escreveu: “Mais claro impossível: deixar crianças bem quietinhas é a promessa e a entrega da galinha pintadinha.
Esta aí é a frase escolhida para comemorar o primeiro bilhão de acessos do canal da Galinha Pintadinha. Tristes crianças anestesiadas e alienadas diante de uma tela.

Certa está a Cientista Que Virou Mãe: “viva as crianças que não estão quietinhas, nem domadas, nem adestradas, nem moldadas para serem tudo, menos crianças”.

Foi o suficiente para muitas mães ficarem bravas. Afinal, a GP é a babá eletrônica de muitas crianças. É a única galinha que proporciona momentos de silêncio numa casa. É ela quem hipnotiza distrai a molecada para a mãe fazer o almoço. Sendo assim, as mães usuárias da GP criticaram o movimento dizendo que não há mal algum com a GP, que é preciso usar os clipes moderadamente, que de vez em quando não faz mal e que somos todos radicais, extremistas e xiitas. Não vamos brigar. Vem cá e dá um abraço. o/ Eu entendo o seu cansaço e sua falta de ajuda em muitos momentos. Também passo por isso. Meu texto não tem intenção nenhuma de criticar essas mães, mas explicar por que a GP não é uma boa opção e tentar apresentar algumas soluções (em um outro post).

Quero, em primeiro lugar, deixar claro que não é recomendado que crianças menores de dois anos sejam expostas a telas. A Academia Americana de Pediatria (AAP) afirma (aqui) que é prejudicial que crianças abaixo de 2 anos de idade fiquem diante de telas de TVs, tablets, celulares, computadores, etc. Essa afirmação é fruto de estudos, de pesquisa. Crianças dessa idade precisam interagir, brincar, manipular objetos, sentir texturas. Quando se coloca uma criança dessa idade em frente à TV, ela está tendo seu tempo roubado. Tempo que poderia ser usado pra outro fim mais produtivo e mais criativo.

Entendido que não é recomendado que crianças menores de 2 anos assistam TV? Ok. Vamos passar para crianças maiores. A criança um pouco maior, exposta aos clipes da GP, tem uma tendência a criar um vínculo emocional com a personagem. Elas amam a galinha! Os criadores da GP, um administrador e um publicitário, com uma sacada genial, licenciaram a marca. Você sabe o que é um produto licenciado? Produto licenciado é aquele que se agrega uma marca e que seja conhecido e atrativo ao público. Não é à toa que os dois ficaram milionários.

Com a GP licenciada, há produtos de todos os tipos (e de qualidade duvidosa): piscina, copo, sandália, pelúcia, lousa mágica, roupa, cabide (cabide, gente! cabide!) e tudo mais. A criança ama a galinha, ela vai querer o produto e os pais vão querer fazer sua vontade. Pouquíssimas pessoas têm uma posição crítica em relação ao consumismo. Isso significa que pais, avós, tios, tias e madrinhas vão comprar tudo da GP para a criança. Em pouco tempo, sua casa vai parecer um setor da Ri Happy lotado de produtos da GP. E eu não consigo ver isso como algo positivo.

Vamos falar dos criadores? Você acha MESMO que o publicitário e o administrador que criaram a GP tiveram a intenção de beneficiar seu filho? De garantir o bem-estar dele? O intuito da GP, como ficou claro, não é divertir os pequenos, mas mantê-los quietos. Objetivo alcançado. 1 bilhão de crianças quietas. Quem quer as crianças quietas? Os pais. Logo, a GP é para os pais, não para as crianças. E isso é uma puta sacanagem. Usar as crianças para beneficiar os pais. Tanto é para os pais que os criadores tiveram mais uma sacada genial: utilizar canções tradicionais que nos pegam pela lembrança afetiva. Quem não quer mostrar aos filhos canções da época dos avós e dos próprios pais? É tudo uma jogada pra fazer parecer legal e livrar as mães da culpa por deixar as crianças hipnotizadas vendo GP. Afinal, as crianças estão tendo contato com canções tradicionais bem legais.

Muita gente argumenta que isso é exagero. Usar moderadamente, de vez em quando, um pouquinho não tem problema. O problema é que esse de vez em quando pode virar sempre muito facilmente. Imagine: a criança está lá quietinha em frente à TV por 20 minutos. Não está “perturbando” nem gritando. O silêncio impera. Qual é a mãe/o pai cansad@ que vai tirar a criança da frente da TV? Ah, queridos, eu duvido, hein. O silêncio, para os pais, é algo muito sedutor. Outra coisa: militância e ativismo não se fazem com “moderadamentede vez em quandoum pouquinho“. Quem milita a favor do casamento homoafetivo, por exemplo, não vai fazê-lo moderadamente. A ativista do parto humanizado não vai admitir cesárea eletiva de vez em quando. Quem é feminista não é a favor do feminismo só um pouquinho. O mesmo acontece com quem milita a favor de uma infância ativa, plena e sem publicidade.

Um outro ponto que me incomodou bastante: as pessoas defendem uma marca como se fosse alguém da família. Tamanha é a “eficiência” das propagandas! Na época do ataque aos sucos de caixinha açucarados, vi um monte de gente defendendo uma determinada marca com unhas e dentes. Já vi gente fazendo festa de filho seguindo o tema Coca-Cola. Percebam: as pessoas estão gastando seu tempo e seu dinheiro para defender e fazer propaganda de marcas que só visam o lucro por livre e espontânea vontade! Isso é assustador. É o poder da publicidade. As marcas conseguem o que querem muito facilmente. Somos manipulados o tempo todo com facilidade. Isso, sim, merece reflexão. Pra mim, a GP é nociva porque leva as crianças a desejarem bens de consumo de forma inconsequente e incontrolável. Associar o incentivo ao consumo inconsciente ao lúdico é, no mínimo, um desaforo.

Pra finalizar, entendam: não estou julgando você, mãe/pai. Acho, inclusive, que nós também somos vítimas. A minha questão é proporcionar à criança uma infância plena e livre. O que menos uma criança no alto do seu desenvolvimento motor e psíquico precisa é estar estagnada na frente da TV vendo Galinha Pintadinha.

Comentários

comments

6 comments
  1. Anderson Porto

    O maior problema da Galinha Pintadinha é justamente a questão do FOCO (silêncio é consequência). Centrar o foco da criança em um ponto só, quando ela está em desenvolvimento neural e precisa de estímulos variados e multifocais, desconfio, é capaz de criar problemas que só serão sentidos mais tarde e constados por pesquisas científicas.

  2. Ivana Millán

    Para mim, é um tema bem complexo na minha casa. Eu e meu marido concordamos 100% com TUDO o que vc disse, mas por outro lado, amamos cinema: Procurando Nemo, Os Incríveis, Star Trek, Star Wars… o que acabam vendendo dessas marcas, ganha os nossos corações. Gostamos de ter, colecionar, ver, acompanhar… o que fazer? Como esperar que nossos filhos sejam diferentes se nós somos fãs do Galaxy SWhatever, dos filmes do Batman -e dos personagens todos- e etc? Acho que o consumo vai estar presente, ao menos desses ítens, mas temos que pensar na moderação… não vejo outro caminho, Dany. Me dá outra luz?

  3. por Carol Marques

    Que bom ler isso! Concordo 100%.
    Parabéns pelo texto, depois posso compartilhar e indicar? Claro, indicando aqui a fonte.

    Menina, como é difícil para mim encontrar opiniões como a sua. Vivo numa cidade de interior e me sinto fora do meu planeta.
    Obrigada por postar este texto.

    Beijo.
    Carol

  4. Elisa Novaski

    Eu concordo plenamente com cada palavra que vc disse, mas não sei muito bem como lidar com algumas situações. Me explico: minha filha ( 1 ano e 3 meses) ganhou de natal do padrinho uma mesa da galinha pintadinha. Ele foi até a loja, escolheu o presente com o maior carinho, fez questão de vir até a minha casa antes de eu sair de viajem para entregar o presente e ver a reação da afilhada. Na hora que eu vi, eu não gostei, afinal sou contra essa coisa de personagens, mas tive que reconhecer o seu gesto de carinho porque ele não tem ideia do que eu pensava sobre isso. Da mesma forma, não tenho como me "livrar" do presente porque ele frequenta a minha casa e sempre me pergunta sobre a mesa, se ela está brincando, se ela gostou… enfim, a mesa tá la em casa e ela brinca com a mesa, mesmo eu não concordando com o que a marca representa.
    Outra situação: minha sogra comprou uma camisetinha da GP tb. Como eu posso não usar e falar pra minha sogra que "não concordo com o consumismo que a GP incentiva". Ela já é uma senhora, do interior, semi analfabeta, que comprou uma camisetinha pra alegrar a netinha. Ela não vai entender esse discurso de consumismo e, simplesmente, vai achar que estou sendo chata com ela, por implicância, entende? Novamente, para não magoa-la, não disse nada e minha filha usa a camisetinha.
    Então, essa indústria é tão poderosa que, por mais que não queiramos, às vezes, temos que engoli-la goela abaixo porque, como vc disse, as pessoas não entendem que a crítica é ao sistema, elas encaram aquilo como pessoal e pensam que vc, na verdade, está atacando-as.
    Enfim, é muito difícil nadar contra a corrente…

    Um abraço,
    Elisa.

    http://maternagemealgomais.blogspot.com.br/

  5. Line Sena

    Excelente post, Dany!
    Me fez lembrar desse poema do Carlos Drummond de Andrade:

    EU ETIQUETA

    Em minha calça está grudado um nome
    Que não é meu de batismo ou de cartório
    Um nome… estranho.
    Meu blusão traz lembrete de bebida
    Que jamais pus na boca, nessa vida,
    Em minha camiseta, a marca de cigarro
    Que não fumo, até hoje não fumei.
    Minhas meias falam de produtos
    Que nunca experimentei
    Mas são comunicados a meus pés.
    Meu tênis é proclama colorido
    De alguma coisa não provada
    Por este provador de longa idade.
    Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
    Minha gravata e cinto e escova e pente,
    Meu copo, minha xícara,
    Minha toalha de banho e sabonete,
    Meu isso, meu aquilo.
    Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
    São mensagens,
    Letras falantes,
    Gritos visuais,
    Ordens de uso, abuso, reincidências.
    Costume, hábito, permência,
    Indispensabilidade,
    E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
    Escravo da matéria anunciada.
    Estou, estou na moda.
    É duro andar na moda, ainda que a moda
    Seja negar minha identidade,
    Trocá-la por mil, açambarcando
    Todas as marcas registradas,
    Todos os logotipos do mercado.
    Com que inocência demito-me de ser
    Eu que antes era e me sabia
    Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
    Ser pensante sentinte e solitário
    Com outros seres diversos e conscientes
    De sua humana, invencível condição.
    Agora sou anúncio
    Ora vulgar ora bizarro.
    Em língua nacional ou em qualquer língua
    (Qualquer principalmente.)
    E nisto me comparo, tiro glória
    De minha anulação.
    Não sou – vê lá – anúncio contratado.
    Eu é que mimosamente pago
    Para anunciar, para vender
    Em bares festas praias pérgulas piscinas,
    E bem à vista exibo esta etiqueta
    Global no corpo que desiste
    De ser veste e sandália de uma essência
    Tão viva, independente,
    Que moda ou suborno algum a compromete.
    Onde terei jogado fora
    Meu gosto e capacidade de escolher,
    Minhas idiossincrasias tão pessoais,
    Tão minhas que no rosto se espelhavam
    E cada gesto, cada olhar
    Cada vinco da roupa
    Sou gravado de forma universal,
    Saio da estamparia, não de casa,
    Da vitrine me tiram, recolocam,
    Objeto pulsante mas objeto
    Que se oferece como signo dos outros
    Objetos estáticos, tarifados.
    Por me ostentar assim, tão orgulhoso
    De ser não eu, mas artigo industrial,
    Peço que meu nome retifiquem.
    Já não me convém o título de homem.
    Meu nome novo é Coisa.
    Eu sou a Coisa, coisamente.

  6. O grupo Palavra Cantada perdeu uma fã quando fui em uma loja de brinquedos trocar um presente da Rafaela (inclusive era uma Galinha Pintadinha) e vi que tinha um brinquedo com a cara dos 2 cantores para vender.

    O único personagem que a Rafaela reconhece são as caveirinhas da mamãe espalhadas nos meus adereços, pela casa e nas coisinhas e algumas roupinhas da pequena 😉

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