Quartinho da Dany

Um blog sobre maternidade consciente

Bons Sonhos: uma opinião

22:41
Assisti ao novo programa do GNT sobre como fazer um bebê dormir, o Bons Sonhos. Confesso que não vi mais que um episódio e nem o episódio inteiro. No entanto, as cenas que vi foram, pra mim, muito chocantes. O episódio que assisti mostrava um bebê que acordava muitas vezes, o que é normal e esperado. Os pais cansados recorreram à "especialista do sono". De acordo com o método do sono aplicado pela especialista, o bebê chora por muito tempo (vi um bebê chorando por 63 minutos). Os pais, ao ouvir o choro da criança, se desesperam. O pai, inclusive, confessa que, se a especialista não estivesse lá, ele não faria nada daquilo. 

Antes de mais nada, preciso deixar claro que este texto não tem por objetivo julgar os pais, pois só quem tem uma criança que acorda muito à noite sabe como é difícil. Inclusive, é importante lembrar que a privação do sono foi uma das técnicas de tortura da CIA. Quando você espera por um bebê, não há como te preparar para passar por essa situação. É, de fato, torturante. A privação do sono pode causar confusão mental, raciocínio lento, problemas de memória e coordenação motora, queda da imunidade e, principalmente, irritabilidade. Logo, pode-se imaginar que os pais de um bebê que acorda muito na madrugada querem muito que a situação se resolva porque eles precisam estar saudáveis para cuidar desse bebê, que demanda atenção, paciência, amor e calma. Sendo assim, não podemos julgar os participantes do programa porque, como escrevi antes, a privação do sono é uma das situações mais penosas da mater/paternidade

No entanto, é essencial que os pais de uma criança que acorda muito entendam por que e como se dá esse processo doloroso. Em primeiro lugar, é importante deixar claro que a maioria dos bebês acorda muito à noite. É verdade que quase ninguém confirma isso porque é muito difícil confessar que está passando por um momento difícil. Todos esperam de recém-pais que eles estejam radiantes e felizes. Não dão espaço para possíveis reclamações e queixas. Sabendo que a maioria dos bebês acorda, fica mais fácil aceitar que tudo bem o seu acordar também. Não há nada de anormal um bebê acordar à noite.

Entender por que um bebê acorda frequentemente talvez ajude a lidar melhor com a situação. Um bebê que acabou de sair do útero ainda não sabe diferenciar dia e noite. Não sabe que ele deve dormir em horários determinados . Tudo o que ele faz é instintivo: dormir, mamar, chorar. O bebê ainda não tem consciência de padrões e rotina. Tudo é aprendizado e, como qualquer aprendizado, dormir deve ser tratado de maneira respeitosa e sem violência, aos poucos, pacientemente. Paciência - aquela palavrinha mágica que falta aos pais de bebês que acordam muito. 

Aprendizado está diretamente ligado a desenvolvimento. Um bebê desenvolve-se em diversas áreas de acordo com o seu ritmo: ele aprende a mamar, a sentar, a engatinhar, a andar. Ninguém obriga um bebê de 4 meses a sentar porque ele ainda não tem maturidade motora para sustentar o corpo. Obrigar um bebê a dormir sozinho em seu quarto é como obrigá-lo a andar quando ele ainda está na fase de engatinhar. É pular etapas, ultrapassar limites sem respeitar o desenvolvimento e maturidade física e emocional da criança. Dormir uma noite inteira sozinho exige uma maturidade neurológica que bebês ainda não têm. Bebês não nascem sabendo andar e não nascem sabendo dormir. Para um bebê, tudo é novo e todo aprendizado deve respeitar o desenvolvimento de acordo com a idade e a maturidade de cada criança. A maturidade neurológica para dormir uma noite inteira vem com o tempo. 

Obrigar um adulto a dormir quando ele não está com sono é um ato autoritário. Há adultos que não conseguem dormir em um quarto escuro. Há outros que preferem dormir com companhia. Há quem goste de dormir com um bichinho de estimação. Porém, na nossa cultura, o bebê deve ficar isolado em seu quarto sem demandar presença, calor humano ou segurança. Desde o nascimento, ele é levado para longe de sua mãe e fica em um berçário afastado por muitas horas. O medo de que o bebê se apegue demais à mãe é uma ideia tão aterrorizante para a sociedade que inventaram que é bom acostumar no berço, é bom acostumar no carrinho, é bom acostumar no chiqueirinho, é bom acostumar em qualquer lugar longe da mãe. Percebam quando uma mãe fica muito com um bebê no colo. Logo dizem: vai mimar demais essa criança! Como se fosse pecado amar, acalentar e dar aconchego e segurança à quem amamos. Um bebê que passou nove meses dentro do útero de sua mãe não merece ser separado dela a qualquer custo por capricho de adultos que acostumaram-se com a falta de amor, com a solidão e com a insegurança. Até os dois anos, a criança ainda não tem consciência de que ela é um ser separado de sua mãe. 

Voltando ao fato de que é difícil e torturante acordar a noite toda, eu insisto: pais e mães precisam de rede de apoio. É impossível atender um bebê a noite toda e acordar feliz arrumando a casa e pensando na preparação de uma deliciosa refeição. É preciso que alguém leve de presente uma quentinha a esses pais. É uma ótima ideia amigos se reunirem pra ajudar na faxina num sábado qualquer. Seria muito legal se um amigo se dispusesse a ficar com bebê por algumas horas enquanto a mãe dorme por umas duas horas numa manhã. Alguém que segure essa criança pra que um banho merecido e longo seja aproveitado por quem passou a noite acordando. O bebê não é o problema. O problema é que nos distanciamos da família e dos amigos. Vivemos sobrecarregados e solitários em nossos lares. Cada um por si. E criar uma criança só é uma das tarefas mais árduas do mundo. Já diz o ditado: "é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança". Rede de apoio é fundamental. Uma especialista do sono, bem, não tenho tanta certeza.

O que acontece no programa é bem parecido com a teoria de aprendizagem de Skinner. A palavra é comportamento. Incentiva-se a repetição mecânica para que o indivíduo seja adestrado, o que provavelmente levará à memorização de um comportamento. A aprendizagem ocorre basicamente através de estímulo-resposta. Em sua teoria, o Behaviorismo, o comportamento desejável é obtido pelo reforço (positivo ou negativo), como dar um biscoito ao cão que pega a bolinha. Desta forma, Skinner propõe uma aprendizagem que se baseia em treinamento e condicionamento, ignorando completamente as habilidades inatas do ser humano.

E como lidar com essa situação difícil? Em primeiro lugar, é preciso que a gente se desnude e comece a falar sobre a real mater/paternidade. Bebês choram. Bebês querem mamar o tempo todo. Bebês acordam muito. Bebês que fogem desse padrão são exceções. Ninguém será um pai ou uma mãe ruim se disser verdades que precisam ser ditas sobre criação de filhos. Bebês que dormem muito não são mais incríveis que os outros. Não há como comparar seres humanos. A comparação mina nossa segurança, nos desestabiliza, nos enfraquece. Bebês são diferentes uns dos outros. Uns vão dormir mais. Outros, menos. E tudo bem. Só há uma coisa que eu posso lhe dar certeza: eles não vão acordar de hora em hora pra sempre. NÃO VÃO. Há tempo para tudo. E vai chegar a hora em que eles vão dormir sozinhos porque chegaram muito cansados da escola, na cama deles. E você terá que escovar os dentes deles com eles ainda dormindo e colocar uma roupinha aos trancos e barrancos naquele corpinho molengo adormecido porque estarão cansados e, principalmente, porque já estarão neurologicamente amadurecidos para pegarem no sono sozinhos e dormirem uma noite completa. 

Calma. Respira. Vai passar. 

Assinado: Dany, mãe insone por 2 anos e meio, que acordou a cada meia hora durante esse tempo. Sim, Artur dorme a noite toda e pega no sono rapidamente. Mágica? Não. O tempo. Ele cura tudo. 

{foto mais querida do meu caçula dormindo}


Referências:

GUTMAN, Laura. A maternidade e o encontro com a própria sombra. 5ª edição. Rio de Janeiro: Bestseller, 2013.

OLIVEIRA, Thelma B. O livro da maternagem: para mães, pais, cuidadores e doulas. São Paulo: Schoba, 2012.

PILLET, Nelson. Psicologia Educacional. 17ª ed. Ática. São Paulo, SP.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Priva%C3%A7%C3%A3o_de_sono (acessado em 20 de março de 2017)

http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141210_eua_cia_tortura_hb (acessado em 20 de março de 2017)

Quando o meme vale mais que a saúde da população

10:33
A carne é vendida estragada. A maioria da população não é vegana ou vegetariana. Isso certamente causa doenças irreparáveis. Comer carne é não respeitar os animais, segundo vegetarianos/veganos. É uma visão de mundo, de vida, de respeito aos animais e ao meio ambiente, já que o consumo de carne causa vários danos ao meio ambiente. Dentre eles, um desperdício de água absurdo para produzir 1 kg de carne vermelha.

Diante dessa notícia de carne adulterada e podre, poderia acontecer uma grande revolução: as pessoas poderiam deixar de comer carne ou, pelo menos, diminuir o consumo. Um gancho incrível pra colocar em prática um estilo de vida que não maltrata animais. Quando a porta não abre por dentro, a militância poderia se beneficiar de notícias trágicas assim pra atrair mais gente pro movimento.

No entanto, tenho visto piadas em torno de um acontecimento que pode causar doença ou até matar a população. Eu me sinto muito confortável em falar sobre isso porque jamais fiz piada com veganos ou vegetarianos. Pelo contrário, sempre admirei e tenho um pezinho lá na porta do vegetarianismo que só precisa de um empurrãozinho. Elogio sempre as pessoas que deixaram de consumir carne, porque eu sei que é um ato de nadar contra a maré, é revolucionário, requer informação e uma busca louvável por uma nova forma de se alimentar, o que é fantástico.

A população em geral consome carne porque é algo cultural. As pessoas simplesmente não veem outra possibilidade. Diferente de mim, que tenho acesso à informação e tenho procurado mudar de acordo com as minhas possibilidades, a maioria nem imagina que pode viver sem carne.

Vou citar alguns exemplos práticos.

- Eu faço meu molho de tomate caseiro. Diante da notícia de pelo de roedor no molho de tomate industrializado, eu me indignei com a indústria e aproveitei o cenário pra dar a receita do molho que uso. Minha crítica é à indústria e à publicidade, que molda o consumidor menos informado. Não cabia piada diante de um acontecimento que prejudicava a saúde das pessoas.
(https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2016/07/28/anvisa-proibe-venda-de-extrato-e-molho-de-tomate-com-pelo-de-roedor-de-5-marcas.htm)

- Eu faço suco natural para os meus filhos, sem açúcar e sem conservante. Diante da notícia de que o Ades continha soda cáustica, eu me indignei com a indústria e aproveitei o cenário pra dizer que é melhor tomar água ou fazer suco  da fruta em casa. Minha crítica é à indústria e à publicidade, que molda o consumidor menos informado. Não cabia piada diante de um acontecimento que prejudicava a saúde das pessoas.
(http://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2013/04/laudo-do-adolfo-lutz-confirma-que-suco-ades-continha-soda-caustica.html)

- No meu segundo parto, corri atrás de um parto que respeitasse a fisiologia e respeitasse meu filho. Diante da notícia de que cesáreas desnecessárias impactam na mortalidade materna e na mortalidade infantil", eu me indignei com a indústria de nascimentos e aproveitei o cenário pra dizer que parto normal é possível e aproveitei pra esclarecer o que é violência obstétrica. Minha crítica é à indústria cesarista, que incute na mulher o medo de parir. Não cabia piada diante de um acontecimento que prejudica a saúde das pessoas. 
(https://www.cartacapital.com.br/saude/epidemia-de-cesareas-influencia-na-mortalidade-materna-5619.html)

Diante das mais variadas piadas, memes e zoações veganas, eu só posso corroborar meu post anterior sobre elitismo vegano (https://www.facebook.com/quartinhodadany/posts/1072585876184582). Acham-se seres superiores porque conseguiram ver a luz. Uma lástima não aproveitarem da situação pra trazer mais gente pro movimento. Na verdade, pra mim, fica claro que, apesar da preocupação com a crueldade animal, a preocupação com a saúde da humanidade não importa. Parece que o que importa é pregar e ver mais gente dizendo amém.

Rir de uma população que adoece e morre por culpa de grandes corporações é tão cruel quanto comer cadáver animal.






Meus filhos e meus planos são incompatíveis

16:26
Há tempos não faço nada por mim. Vivo tentando sobreviver aos dias cansativos e cheios de afazeres, que, óbvio, não dou conta. Ontem levei o pequeno na praça pela manhã. Sol na ida, sol na volta. Calor! Voltamos. Dei banho, arrumei, dei almoço, levei pra escola, mas não sem antes deixar o almoço do mais velho arrumado pra quando ele chegasse. Na volta pra casa, parei na farmácia. Estava eu comprando coisas pra eles, nunca pra mim. Avistei, de longe, os nomes low poo. Caramba! É disso que todo mundo fala! Dizem que o cabelo fica lindão. Vou levar! Sem pesquisar nada, sem ler nada, sem saber de nada. Essas coisas, preciso fazer de supetão ou não faço. Trouxe o kit low poo!

Planejei pro dia seguinte:

  • trabalhar de manhã
  • voltar pra casa correndo e levar o caçula pra escola
  • voltar pra casa e escrever/ler/estudar
  • lavar meu cabelo com meu kit-novo-magia-puro-poder
  • pegar o mais velho na casa de um amigo, onde ele estaria fazendo um trabalho
  • passar na escola do mais novo e trazê-lo de volta pra casa
  • dar comida a todos
  • banho, escovar dentes e dormir

Todos os planos evaporaram como água no asfalto num dia muito quente.

Fui trabalhar e voltei correndo, como planejado. Assim que Artur me olhou de fora do carro, vi que tinha algo errado. Quando me abraçou, tive certeza. Estava febril, com a respiração difícil, olhos caídos. A conexão é tão intensa que só de olhar de longe a gente sabe, pelo olhar, que tem algo errado. Puxa! Tudo por água abaixo. Partimos pra emergência em vez de ir pra escola.

Meu despertador tinha tocado às 5:30. 12:30 e eu já estava com fome. Meu sono, cansaço e fome tinham que esperar. Emergência cheia. Crianças doentes por todo canto. Artur adormeceu no meu colo. Com o braço já dormente de segurar aquele mocinho pesado de três anos e meio, eu tirava forças da certeza de que não seria nada grave. Bolsas - minha e dele, filho grandão, carteirinha do plano de saúde, celular pra avisar à mãe e ao marido. Eu ali, sozinha, com um filho doente e os planos do dia indo por água abaixo.

Não eram planos tão importantes assim - lavar o cabelo, escrever, buscar os dois filhos - mas eram meus planos. E eu já havia deixado tantos pra trás. Tantos outros mais importantes. Será que nunca chega a minha vez? Eu sei, eu sei que passa rápido. Eu sei que meus filhos merecem meus cuidados e meu amor. Mas, e eu? E minhas expectativas? Não são tão importantes quanto? Tentava me apegar a algo que li por aí há algum tempo: “criança, prioridade absoluta”.

Medicado e sonolento, voltamos. No caminho, lembrei do mais velho! Meu deus do céu! Ele iria almoçar fora e fazer um trabalho na casa de um colega. Eu não sabia de mais nada: onde ele estava, se tinha almoçado, se já estava indo pra casa, se precisa de mim. Que mãe é essa que não consegue balancear os cuidados dos dois filhos? Ela, elazinha chegou: a culpa. A culpa não chega devagar. Ela chega metendo o pé na porta e estraçalhando todo o restinho de coração que sobrou. E se tivesse acontecido alguma coisa com o meu filho na rua e eu nem estivesse sabendo? O pensamento que vem é: eu não sirvo pra ser mãe de dois. Liguei pra ele. Estava tudo bem. Já tinha almoçado. Já estava com os colegas. Perguntei se ele precisava de mim na esperança de que ele não precisasse - olha o horror! - porque eu não saberia como equilibrar filho doente e dormindo, remédio pra comprar na farmácia, peso e calor. Ele estava bem. Não precisava de mim. Filho, desculpa, eu não consigo cuidar de todo mundo ao mesmo tempo.

Cheguei. Coloquei o pequeno adormecido na cama. Tirei minha roupa. Fui almoçar às 15h. Não tinha comido nada ainda. Nem tomei café da manhã. Agradeci por não ser nada sério com o pequeno. Agradeci pela autonomia do primogênito. Agradeci por ter braços fortes, mesmo que cansados, pra acolher tudo o que eu posso.

10 dias de antibiótico.
O kit novo pro cabelo vai ter que esperar mais um pouco.
Assim como o mestrado que ficou pela metade, os novos concursos que quero fazer, os projetos que quero tocar, a loja que tive que fechar, a fisioterapia que preciso fazer.

A maternidade é um eterno tirar o ego do centro.


Fica, bicho-carpinteiro!

15:42
Toda criança tem um bicho-carpinteiro. Conhece ele? Ele não é malvado, não. Ele funciona como um bichinho danadinho que cutuca toda criança pra que elas façam o que adultos param de fazer com o tempo: brincar, correr, pular, saltar, gargalhar. Pode notar que as crianças começam sua vidinha de maneira eufórica! Com seus mil porquês por segundo, são as criaturinhas mais perguntadeiras do mundo! São inquietas. Sobem e descem, deitam e levantam, correm, mas não param.

O bicho-carpinteiro traz um sintoma inexplicável: o olhar! Ah, o olhar… Olhar curioso. Olhar atento. Olhar entusiasmado. Dá até medo de que aquele olhar faça soltar uma pergunta intrometida no silêncio do elevador. O bicho-carpinteiro também causa sincericídio: frases indiscretas, falas inoportunas, palavras intrometidas.

O bicho-carpinteiro trabalha firme. As crianças tornam-se notáveis, bisbilhoteiras e tagarelas. Impossível não notá-las. Experimenta entrar num jardim de infância. Cheiro bom de massinha misturada com merenda. Mini seres humanos correndo com sorriso largo no rosto. Felicidade e originalidade. Não precisam fingir ser o que não são. Espontâneas e xeretas, elas fazem nosso coração se renovar. Não tem adulto que não saia de um jardim de infância com um sorrisinho. Mesmo que amarelo…


Com o tempo, vão matando esse bicho-carpinteiro. Querem eliminá-lo e fazem de tudo pra isso. Silenciam as crianças. Querem-nas sentadas e comportadas. Obedientes. Quietas. De preferência, que não perguntem. Não é à toa que chegam à Educação Infantil fazendo mil perguntas e saem do Fundamental sem nem, ao menos, tirar dúvidas. Porque foram vacinadas e medicadas pra que o bicho-carpinteiro morresse. O nome do remédio? Incapacidade de lidar com espontaneidade, o famoso silenciador. Assim, o bichinho vai morrendo e as crianças vão se tornando adolescentes sem curiosidade, sem olhar vibrante e duvidando do seu potencial criativo. Que pena! Mal sabem eles que exterminar o bicho-carpinteiro é podar asas de seres humanos que seriam muito mais livres com ele.


Uma reforma que afronta os direitos trabalhistas, principalmente das mulheres

09:17
Maternar é fazer política! A Prevividência Social defende que mulheres e homens se aposentem com a mesma idade: 65 anos. O argumento principal é equilibrar as contas da Previdência. Segundo eles, mulheres vivem mais e, assim, recebem o benefício por mais tempo. E qual é o problema nessa suposta "equidade"? Porque a rotina de homens e mulheres é completamente diferente. Quanto tempo ambos gastam com tarefas domésticas? Homens: 1,5 horas Mulheres: 3,8 horas Quanto tempo homens e mulheres com filhos gastam com tarefas domésticas? Homens: 1h 30min Mulheres: 4h 12min Quanto tempo homens e mulheresem situação de extrema pobreza gastam com tarefas domésticas? Homens: 1h 45min Mulheres: 4h 32min Segundo o IBGE, mulheres brasileiras trabalham 55 horas por semana, incluindo os afazeres domésticos. Por outro lado, homens trabalham 50,5 horas. Sendo assim, podemos dizer que mulheres trabalham 12% a mais do que homens. Para que fique claro: Mulheres são as principais cuidadoras dos filhos. Mulheres ganham menos que homens mesmo tendo o mesmo cargo. Mulheres são demitidas quando voltam da licença maternidade. Mulheres são as principais responsáveis pelas tarefas domésticas. Na separação, mulheres ficam com os filhos e acabam aceitando qualquer trabalho independentemente da remuneração porque passam a ser responsáveis pela renda familiar. Mulheres ocupam 93% dos cargos de empregadas domésticas, profissão que passou a ter seus direitos reconhecidos há pouqíssimo tempo.
Mulheres tornam-se cada vez mais vulneráveis ao passar do tempo: aos 60 anos, apenas 10% das mulheres estão em um emprego formal. É por isso que hoje iremos parar! Esta reforma é uma afronta aos direitos trabalhistas, aos direitos das mulheres, à qualidade de vida das pessoas.


Sobre não querer aturar crianças

12:10
Rainha da Cocada e Brunch Cantareira,
Eu vou acreditar que vocês consideram razoável impedir a entrada de crianças em estabelecimentos comerciais porque não conhecem a realidade de muitas mães. Vou tentar esclarecer da melhor forma possível. Eu sou mãe. Mãe de dois. Cuido deles o dia todo enquanto meu marido trabalha. Opção nossa, conversada e ponderada. Às vezes eu tenho vontade de sair no meio da tarde pra tomar um café num lugar bacana, bonito e com comida gostosa. Então, eu pego os dois e os levo a uma confeitaria com um buffet delicioso de café da tarde. Cada um escolhe o que comer e eu posso, finalmente, tomar meu café na companhia dos meus pequenos companheiros.
Fico pensando se essa confeitaria, da qual sou cliente, resolve não aceitar crianças. Sabe o que vai acontecer? Eu serei excluída. Primeiro, porque não tenho com quem deixar meus filhos pra tomar um café sozinha. Depois, porque não quero. Eu gosto de estar com meus filhos. Eu gosto de sentar com eles à mesa. Eu gosto de sentar com eles em um lugar bacana e conversar. Pois é, eu converso com meus filhos, nós batemos papo sobre diversos assuntos. Eles são companheiros. São pessoas - surpresa! Sabe, Rainha da Cocada e Brunch Cantareira, a maternidade já nos exclui de muitos espaços, inclusive de trabalho e acadêmicos. Não por proibirem explicitamente, mas porque crianças e, consequentemente, mães não são bem vindas e, principalmente, porque na nossa sociedade patriarcal, os cuidados acabam sendo direcionados à mãe. É muito triste pensar que alguém acha justo excluir uma parcela da população.
Você consegue imaginar um restaurante que não aceita idosos? Não, porque seria muita maldade. Pois é, a população é constituída por bebês, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos - todos são pessoas e jamais deveriam ser excluídos de qualquer espaço, seja ele público ou privado. E vou contar um segredo: eu e meus filhos somos frequentemente incomodados nesta confeitaria que amamos. Eles querem ficar em paz, em silêncio, tomando seu chocolate quente e muitos ADULTOS insistem em atrapalhar: puxam assunto chato, tossem demais, conversam alto, palitam os dentes... Adultos atrapalhando meus filhos, crianças. Adultos também são chatos e atrapalham. É preciso aprender a conviver com todos que co-habitam este mundo. Meus filhos estão aprendendo. Espero que muitos adultos aprendam também.
Gostaria de sugerir aos que não querem ouvir criança: procurem um lugar íntimo, reservado e exclusivo. Quer namorar sem criança por perto? Motel. Quer transporte sem criança? Táxi. Quer voar sem criança? Jatinho particular. Quer viajar e se hospedar em um local sem criança? Aluga uma casa. Enfim, no mundo, há crianças. Aceitem. Se as pessoas não querem crianças por perto, o problema é exclusivamente delas. Então, que paguem por exclusividade: táxi, motel, jatinho particular, casa alugada em viagem ou uma ilha particular. O mundo não tem que se adequar às vontades de quem não quer barulho de criança porque elas estão em toda parte, elas existem e são pessoas.
Esse tipo de ação dá margem para que pessoas naturalizem o fato de "odiarem crianças". Crianças são cidadãs e devem ter o direito de ir e vir sem qualquer restrição e, principalmente, merecem, no mínimo, não serem odiadas. A infância é uma fase muito vulnerável e tratada desrespeitosamente há séculos. Elas são abusadas, maltratadas, apanham e são odiadas na sociedade. Talvez seja a única fase que está livre para abusos diversos sem que as pessoas tenham vergonha de admitir que batem nelas, gritam com elas e as odeiam. Como mãe e professora, faço um apelo: antes de dizer "não gosto de crianças", troque "crianças" por "idosos", "mulheres", "deficientes", "negros". Você tem todo o direito de não querer filhos. Eu te respeito e luto pela sua decisão - não à maternidade compulsória. No entanto, respeite a minha decisão de ter filhos e poder circular com eles em qualquer espaço da sociedade.
Um beijo.

Meu primogênito no restaurante. 
Porque sim.

10 verdades que ninguém te conta sobre a maternidade

21:55
Hoje eu publiquei a notícia de um estudo feito pela Kiddicare que revela o fato de que 90% das novas mães mentem sobre a própria maternagem. A maioria diz mentir por medo de demonstrar fracasso. As leitoras da página afirmaram que a mentira ocorre por conta de julgamentos e dedos apontados indicando o que você está fazendo errado. A ajuda, no entanto, não aparece tão frequentemente quanto os julgamentos. Resolvi, então, revelar situações que foram verdadeiras para mim. Cada mulher vivencia a maternidade de uma forma. Não há como padronizar e elencar todas as verdades porque cada família vivencia da sua forma. Assim, pretendo revelar da forma mais sincera possível o que a maioria de nós esconde por trás do "tá tudo bem com o bebê" assim que ele nasce. 

1) Pra começar, você toma um CHOQUE com o seu novo corpo após o parto. O óleo utilizado não funcionou bem. O bebê saiu, mas a barriga parece enorme ainda! Você até se pergunta se não há nada de errado. Afinal, ninguém contou que uma barriga estilo 5 meses de gravidez continua lá quando o bebê sai e que isso é absolutamente normal. Você não se reconhece. Acostumar-se com esse novo corpo vai ser algo muito difícil. 

2) O amor materno pode não nascer junto com o bebê. Ele não acontece sempre de imediato. Ao contrário da propaganda sobre maternidade, o amor é construído no dia-a-dia, nos abraços, no toque, no cheiro, no contato pele a pele. De início, tudo fica bem confuso. Você não sabe se olha pra si, se olha pro bebê, se olha pro que tá acontecendo ao redor. É como um dia confuso e com neblina. Não dá pra ver bem o que realmente está acontecendo.

3) A amamentação é natural, mas não automática. A pega do bebê pode ser difícil. Você pode não saber qual é a melhor posição pra você. O leite não desce de imediato, mas ninguém te fala que o colostro é forte e suficiente. Você começa a achar que está fazendo tudo errado. Não consegue conter as lágrimas. Você se preparou pra aquele momento mágico, mas ele não acontece. Você se esforça, o bebê chora (porque é também um aprendizado pra ele!). Esqueceram de te avisar para correr para o banco de leite da cidade ou contactar uma consultora em amamentação no caso de algum problema que surja. Você descobre, no meio do caminho, que a amamentação é suor, esforço e doação.

4) O bebê vai chorar. Simplesmente, vai. Ele vai chorar porque saiu de um lugar escurinho e está tendo que lidar com toda essa luz aqui fora. Ele vai chorar porque saiu de um lugar quentinho e está tendo que lidar com as variações de temperatura. Ele vai chorar porque todo o barulho, pra ele, é novo. Ele vai chorar porque ele está tentando se adaptar à nova vida, assim como você. Aliás, ele e você vão chorar. Muito.

5) As noites em claro são praticamente impossíveis de lidar. Você leu que o bebê vai acordar de três em três horas para mamar. Pode ser que aconteça, mas pode ser que ele acorde a cada duas horas, a cada uma hora, a cada meia hora. Pode ser que ele acorde se você sair de perto, se você se mexer, se você respirar mais fundo. Caso ele acorde a cada duas horas, acontece mais ou menos o seguinte: ele acorda, você amamenta, ele volta a dormir. MAS... você ainda vai ficar acordada esperando o bebê arrotar e, quando ele arrotar, pode ser que ele faça cocô. Você troca a fralda e deita novamente. Pronto. Já que ele estava dormindo enquanto você o colocava em pé para arrotar e trocava a fralda, já está quase na hora de ele acordar de novo. Você quase não vai dormir. E privação do sono não é brincadeira. Ninguém te prepara pra não dormir. Talvez seja a parte mais difícil.

6) O parto pode não ser o dos seus sonhos. Se for cesárea, ninguém te conta da sensação horrível de não sentir as pernas, da tremedeira pós cirurgia (eu achei que fosse morrer!), do espirro que parece que vai arrancar cada ponto dado. Se for parto normal, ninguém te conta da possível laceração mesmo parindo em posição vertical, do pavor de tomar banho pela primeira vez e sentir o períneo tão inchado que você mal o reconhece, do desespero que é lidar com um períneo irreconhecível. Pode ser que você tenha se programado para parir naturalmente, mas, na hora, você pede cesárea, anestesia ou qualquer outra solução que te livre daquela dor. Nada é mágico como nas fotografias profissionais.

7) Pode ser que você não se sinta feliz. Nesse momento, uma culpa avassaladora bate à porta. Você tem um bebê novinho em folha em casa, lindo, precioso, mas você não se sente feliz. O cansaço, o sono, o peito vazando, a dor nos seios feridos, o sangue que desce, o absorvente enorme, a barriga pós-parto. Tudo está diferente e você não sabe como vai funcionar daquela maneira.

8) Você provavelmente não vai conseguir fazer nada. Às 15h, você ainda vai estar de camisola, sem banho, sentada no sofá amamentando e apertada para fazer xixi sem conseguir. A vida corre lá fora. As pessoas vivem suas vidas e você parece que está ali, parada, literalmente a serviço de um serzinho minúsculo que depende de você. Você não vê mais seus filmes, suas séries, sua novela. Aliás, você nem lembra que dia da semana é. Completamente perdida, imersa num mundo paralelo, pisando em ovos, em nuvens, vagando no desconhecido. Parece que nunca mais você vai ver a luz.

9) Os amigos vão sumir. Os amigos com filhos estão ocupados demais e os amigos sem filhos não entendem sua nova rotina. Você sente falta de toda aquela gente que te paparicou durante a gravidez, que foi ao chá de fraldas, que fez festa quando soube o sexo do bebê, que alisou sua barriga e deu presentinhos. As pessoas somem. Não ligam, não dão sinal de fumaça, não oferecem ajuda. Você se sente sozinha, desamparada, com um bebê nos braços sem saber onde é a saída.

10) Você enfrentará problemas para retornar ao seu trabalho se assim desejar. Na entrevista, vão perguntar com quem vai ficar o bebê e muito provavelmente vão te rejeitar por ter um bebê novinho. Se você tiver emprego, ao final da licença, pode ser que você seja mandada embora. Funcionária amamentando, tendo que sair na hora certinha, que não pode fazer hora extra porque precisa pegar o bebê na creche é vista como inútil. Ninguém quer contratar ou continuar empregando.

Essas são apenas algumas das verdades que eu conheço, da minha realidade, da minha vivência. Não existe só a parte difícil, mas a parte fácil já está nas capas das revistas e já conhecemos. O que ninguém nos conta é da dor, do sofrimento e da solidão. Relatar a parte difícil ainda é visto como tabu já que estamos acostumados a um mundo plastificado onde tudo tem que ser alegre, colorido e brilhante. A maternidade, principalmente, é divinizada e romantizada. É proibido falar sobre tristeza. Mas, falemos. Porque assim como é importante ser feliz, sentir-se triste também faz parte e não há nada de errado nisso. Todo processo envolve dores e amores. Ninguém sai ileso. Há muita luz na maternidade, mas, se há luz, há sombras. É bom estar preparada.


Eu e eles por Mari Hart.




Em defesa da sanidade materna

22:21
Ando preocupada com a sanidade materna. Eu entro nos grupos maternos no Facebook e, num primeiro minuto, já consigo perceber o tanto de mãe exausta à beira da loucura.
Exaustão por passar o dia catando brinquedos o dia todo. Um dos princípios do método montessoriano é a organização do espaço. Uma culpa avassaladora por não conseguir pagar uma escola montessoriana, que custa, no Brasil, por volta de mil reais. Um medo enorme de não colocar o colchão da criança no chão porque, segundo Montessori, TEM QUE ser no chão. Até se você fizer cama compartilhada. A criança precisa ter autonomia. É bom ter um cantinho na sala preparado para a criança com brinquedinho na estante, tapete pra ioga e mesinha (de material natural, por favor).
Tudo precisa estar ao alcance da criança. Só que não há espaço em casa pra isso. O banheiro tem que estar adaptado ou o desfralde não vai ser tranquilo: banco, redutor de vaso, estante baixa pra ter tudo ao alcance das mãos. Na cozinha, torre de aprendizagem, mesa baixa, armário baixo com lanchinhos pra favorecer a autonomia e geladeira com comidinhas na porta pra criança conseguir se alimentar sozinha. Ganhar brinquedo de plástico de parente? Não pode. Por que os parentes existem? Eles atrapalham o método perfeito cheio de elementos naturais. Não pode tapete de EVA nem adesivo na parede. Tudo muito colorido. Atrapalha a concentração.
Tem que amamentar pra sempre. Até a criança não querer mais e você se sentir péssima, cansada, enjoada, mas disfarçar através de compartilhamento de posts sobre "como amamentar pra sempre faz bem". E tem que abraçar na hora da birra. Você não pode ter seus sentimentos. Tudo é voltado pra criança. Só ela importa. Você, não. Se usar chupeta ou mamadeira, você é um monstro sem coração que OPTOU por prejudicar a dentição e a respiração do próprio filho. Momento drama: e vai ter que lidar com o trauma do "deschupetamento".
TV? Nunca! Nunca, nunquinha. Invente mil brincadeiras, cozinhe tudo natural, amamente pra sempre, TV desligada, sem chupeta, ambiente organizado e preparado pra criança, não se descontrole, mantenha a calma, dê autonomia pra tudo. E limpe tudo sozinha depois. E fique exausta. E odeie a maternidade. E finja que nada disso tá acontecendo. E poste muitas fofuras no Facebook pra esconder a mãe infeliz que está por trás daquela criança feliz.
Eu não quero métodos que me aprisionam. Educar para a paz e para a liberdade não é seguir uma bíblia com sim's e não's. Ter paz e liberdade é fazer o que é possível pra não enlouquecer pra que seus filhos tenham, de fato, uma mãe feliz. Infelizmente, a responsabilidade pelos filhos acaba caindo nas costas da mãe. Por mais participativo que o pai seja, não vejo pais em grupos, páginas, discutindo com os amigos sobre cocôs, vômitos e atividades montessori. Vejo mães preocupando-se com tudo, sozinhas, cansadas. A solidão, a culpa e a busca pela perfeição invadem as casas de tal forma que mulheres-mães estão adoecendo por conta dessa cobrança, por causa de métodos inflexíveis e teorias inalcançáveis.
Eu faço o que posso fazer. Amamentei até 2 anos e eu decidi desmamar. Conduzi o desmame respeitando o meu filho, dando amor e, sobretudo, respeitando os meus limites. Cozinho muito, todo dia, toda hora. Mas, às sextas, canso. Peço pizza. Sim, eu tenho direito de jogar tudo pro alto depois de uma semana cansativa. E você também tem. Tem muita brincadeira, mas também teve TV depois de 2 anos porque eu preciso limpar a casa, fazer comida, tomar um café sossegada. Meus filhos sempre tiveram autonomia em casa. Eles sabem que a casa é deles e tudo aqui é nosso. Dormem em beliche. E tudo bem. É tanta autonomia que o pequeno sobe lá na cama de cima e sabe descer sozinho, rs.
Fazer o quê? Ajudar. Ensinar. Comprei o redutor pra vaso. Quem disse que ele quis? Não quis. Nunca usou. Joguei dinheiro no lixo. Senta sozinho no vaso segurando com as próprias mãos. Desfraldou do nada, do dia pra noite. Chupou chupeta com os limites que estabeleci. Um dia a chupeta sumiu de verdade. Avisei que a chupeta tinha sumido. Ficou triste na hora, mas passou. Aceitou melhor que eu. Vai ter dentes tortos? Não sei. Não gostaria que tivesse, mas, se tiver, terei certeza de que fiz o que pude. Preferi que ele tivesse chupeta nos momentos da soneca ao invés de uma mãe enlouquecida. Só aceitei o BLW porque ele não aceitava colher. Suja tudo. Eu sou sozinha aqui durante o dia.
Tenho outro filho que chega da escola com fome e precisa de comida no prato. Horrível ter um bebê todo melecado, o chão da sala imundo e outro filho chegando da escola com fome e eu sem saber por onde começar. Temos brinquedos de todos os materiais: naturais e plásticos. Todo presente é bem vindo e, mais importante que brincar com brinquedo de fibra natural, é valorizar um presente dado carinhosamente por alguém que os ama. Meu filho estuda numa escola tradicional, católica, porque é a que cabe no meu bolso, é perto de casa. Não vou submetê-lo ao trânsito caótico da minha cidade pra ter uma educação "diferentona".
Se estou satisfeita com a escola? Não, mas foi o possível. O critério é: tem que ser perto e caber no meu bolso. Prefiro a minha maternidade possível à maternidade idealizada e triste. Meus filhos são importantes, mas eu também sou. Preciso estar saudável pra cuidar deles. Prefiro a honestidade de não seguir nenhum método à risca ao adoecimento causado por regras impossíveis.
Mulher, você é maravilhosa. Permita-se não enlouquecer. Permita-se não cair em depressão. Permita-se ser feliz e aproveitar a maternidade enquanto seus filhos estão pequenos. O tempo voa. Quando você menos esperar, eles estarão grandes e não vão mais querer segurar sua mão pra atravessar a rua. Ao invés de catar brinquedo o dia todo, beije seus filhos e refresque sua cabeça tomando um café quentinho olhando pro céu. Ao invés de morrer de culpa, viva a maternidade como você pode, dentro das suas possibilidades. Você não deve explicação a ninguém. Ao invés de seguir qualquer método ou teoria à risca, saiba que tudo precisa ser flexível pra que a gente não perca o pouco de sanidade que nos resta.
A vida já é tão cheia de obstáculos... Por que se preocupar com um tapete colorido demais? Eu juro que isso não vai fazer do seu filho uma pessoa menos concentrada. Brinque, beije a barriguinha deles, sinta muito o cheirinho do sovaquinho, "morda" os pezinhos de pãozinho. Nenhuma teoria vai fazer o seu filho mais feliz, mais independente, mais esperto, mais concentrado, mais livre. Não torne a sua maternidade o produto de uma bíblia imutável. Esqueça esse combo que você comprou sem nem ter ideia de que ele tornaria seus dias verdadeiros pesadelos de onde você não consegue fugir. Seu filho só vai aprender a ter autonomia se você tiver. Tome as rédeas! Nenhum grupo de Facebook conhece sua realidade, suas necessidades e seus limites. Criança reflete o que vive. Seja feliz.
Enquanto eu escrevo, o que é um hobby que amo, meu caçula bagunça tudo. E eu não vou arrumar. Daqui a pouco vou pedir pizza de quatro queijos. Tô vivendo. Vivam também. Sobreviver não é suficiente.
Não estou defendendo chupeta, mamadeira, indústria alimentícia, brinquedo de plástico ou TV. Estou defendendo a sanidade materna.

IFoto minha, da minha estante. Enquanto eu escrevo, o que é um hobby que amo, ele bagunça tudo. E eu não vou arrumar. Daqui a pouco vou pedir pizza de quatro queijos. Tô vivendo. Vivam também. Sobreviver não é suficiente.


Criança apegada é criança segura

10:06
Sempre ouvi que iria estragar meu filho se continuasse dando colo sem limites, mamá sem hora marcada, fazendo cama compartilhada e tomando banho junto com ele. Apesar de tanto ler sobre a importância de acolher, em algum momento, tive mesmo dúvida sobre estar fazendo a coisa certa. Duvidei quando ele não me deixou fazer o almoço. Duvidei quando ele acordava assim que eu saía de perto. Duvidei quando meu colo era seu mundo. 

Eu não via outra maneira de criá-lo. Eu, na verdade, não sabia como. Eu só sabia atender meu filho quando ele chorasse e oferecer meu peito e meu colo quando ele quisesse. Sempre tentei me colocar em seu lugar: e se fosse eu chorando? E se fosse eu com medo de dormir sozinha? E se fosse eu querendo ficar no lugar mais quentinho do mundo, o colo da minha mãe? Segui fazendo o que meu coração mandava, mas não sem duvidar de mim e da minha maneira de encarar a criação do pequeno. 

A vida foi seguindo. O desmame foi mais tranquilo do que eu esperava. O desfralde se deu quando ele se sentiu preparado. Ele passou a dormir em seu quarto, na sua cama, com o irmão. E ontem foi a vez do seu primeiro dia de aula aos três anos e meio. 

Tomou banho, almoçou, vestiu o uniforme feliz da vida e seguiu seu caminho sem me dar as mãos. Eu, que me preparei pra acolher choro no primeiro dia, vi um menininho seguro de si e feliz por experimentar uma nova jornada. Chegou dando oi para os amigos e para a professora. Deu tchauzinho pra mim. Colaborou com a professora guardando os brinquedos. Brincou de massinha e foi ao parquinho. Assim, seguro, forte, certo de que eu estaria o esperando na saída. 

Toda a segurança que lhe ofereci nos três primeiros anos de vida o tornou uma criança confiante. Ele aprendeu a confiar em mim, no pai, no irmão, na avó. Ele sabia que, como eu avisei, eu estaria lá fora o esperando na saída. Ele não tinha por que duvidar disso já que nunca se sentiu desamparado. O colo, o abraço, o peito, a minha cama quentinha serviram pra dar a ele a chance de ter a certeza absoluta que eu estou aqui. Essa confiança construída a duras penas, confesso, está sendo importante pro seu crescimento e amadurecimento. 

Além da confiança, ele aprendeu a valorizar as pessoas. Ele colabora com a professora, cuida dos amigos, não bate, é parceiro. Quando o pai perguntou à noite como era a escola, ele prontamente respondeu: "ela é toda feita de amigo". É isso, filho. As pessoas em primeiro lugar. 

Que sua vida seja também toda feita de amigos.   




Desarme-se, informe-se e mude se achar possível

14:34
É natural que a gente queira defender nossa zona de conforto. É um lugar quentinho, seguro e a gente quase não percebe que é machucado ou enganado vivendo lá. A gente já conhece o passo-a-passo, a rotina e é aceito se continuarmos usufruindo desse lugar. A nossa zona de conforto também é a morada de um monte de gente. De quase todo mundo, na verdade. A gente segue sem questionar muito, sem criticar nossas escolhas, sem fazer acender nenhum debate acerca do que é comum. Muita gente se beneficia dessa vida na zona de conforto e não somos nós. É interessante que a gente siga alheio a qualquer informação que chacoalhe nossas escolhas e decisões. É necessário que a gente siga sem questionar para que o controle seja mantido sobre nós.


Apesar de o fluxo de informações ser intenso nas redes sociais, fizeram-nos acreditar que qualquer ideia diferente da nossa é não nos respeitar, é do nosso inimigo, é ofensa pessoal. Isso é uma mentira, claro. E é exatamente aí que entra o papel da mídia independente e alternativa. Nosso interesse não é lucrar, mas construir uma sociedade plural, crítica e ativa. Pra isso, precisamos do livre fluxo de informações sem pré-conceitos ou armas levantadas. É preciso que a gente olhe pra dentro de si e pro outro despido da manta competitiva e do véu da rivalidade. As duas nos cegam e criam barreiras para as possibilidades de um mundo novo e possivelmente melhor.

Ao afirmar que amamentar um bebê é melhor para ele e para a mãe, não queremos promover competitividade ou segregar as mães. Nós pretendemos, na verdade, que todas as mulheres confiem em si, no próprio corpo, na sua força. Desejamos que bebês sejam nutridos com segurança e com o melhor alimento criado pra eles. Isto não significa dizer que todas as mulheres devem amamentar a qualquer custo e ignorar a dificuldade de cada uma. Isso significa dizer o que a mídia não diz. Isso significa confrontar a maior indústria de leite artificial existente. Isso significa ir contra todo um sistema que te diz que você não pode amamentar e que também acabou colocando o Brasil em um dos piores rankings de amamentação exclusiva e prolongada, o que prejudica a saúde da maioria das crianças a longo prazo.

Isso também acontece com o parto normal. Uma vez que você fica com uma pulguinha atrás da orelha se perguntando qual foi o caminho percorrido até chegarmos à geração que praticamente é incapaz de parir naturalmente (segundo a maioria das indicações), você começa a questionar toda uma indústria da cesárea que não está interessada em beneficiar mães e bebês, mas em lucrar. Não cabe aqui o julgamento sobre a qualidade da sua maternidade. A maioria de nós faz o possível e o impossível para sermos boas mães. E somos. Não é sobre ser melhor que a outra ou ganhar o troféu ultra-mega-blaster de parideira. É sobre se perguntar por que chegamos ao ponto de ter 90% de cesáreas na rede suplementar de saúde se a recomendação da OMS é de 15%. Um disparate desse tipo precisa ser, no mínimo, repensado. Não é culpa nossa. Muito pelo contrário. Nós estamos deixando de ser beneficiadas e nossos filhos, também. É sobre saúde, sobre poder, sobre ter acesso a todo tipo de informação relevante pra que não nos enganem a ponto de tirarem de nós nosso rotagonismo.

Eu sou a primeira a defender  e a respeitar a mulher e suas escolhas, mas, antes de mais nada, precisamos saber que nossas escolhas são moldadas pela mídia, pela indústria e por toda sorte de mensagem que chega até nós, aparentemente, inofensiva, mas muito eficaz. Quando uma marca de brinquedos famosa vende milhares de bonecas chupando chupeta, você acredita desde criancinha que todos os bebês chupam chupeta. Quando uma marca de leite artificial nos bombardeia diariamente com propagandas na TV, outdoors e posts patrocinados no Facebook, a gente passa a naturalizar o leite artificial, que deveria apenas ser usado em casos raríssimos. Quando quase todos os obstetras do plano de saúde apresentam mais de 90% de cesáreas em seus números e algumas maternidades glamourizam uma cirurgia desnecessária marcando cineparto, a gente passa a achar que é uma cirurgia bastante simples e acaba não tendo acesso aos reais benefícios do parto normal. Quando personagens de novelas aparecem em cenas de parto normal sofrendo, morrendo e tendo o pior momento de suas vidas, a mensagem que chega é que parir naturalmente é algo terrível. Eu sou a favor das escolhas. Sempre serei. Desde que essas escolhas sejam conscientes e que ultrapassem os limites do que nos é fornecido pela mídia tradicional e pelas propagandas.

Por favor, desarme-se. Não são julgamentos. Não estamos competindo. Não se distraia com rivalidade feminina. Enquanto a gente se distrai brigando e competindo, as corporações estão lucrando e nós, trabalhando cada vez mais para manter o lucro delas. Defender que um bebê não necessariamente precisa de chupeta, mamadeira e nascer via cirurgia é mexer com uma estrutura poderosa de controle sobre nosso corpo e poder. A família de um bebê que não toma mamadeira deixa de comprar latas e latas de leite artificial, deixa de comprar mamadeira, esterilizador de mamadeira, escovinha para lavar mamadeira, aquecedor de mamadeira e, na maioria das vezes, deixa de comprar muitos remédios porque bebês amamentados podem ser muito protegidos de doenças diversas. Logo, faz muito sentido para a indústria naturalizar a alimentação artificial. Amamentar não gera lucro para as empresas, mantém nossos bebês saudáveis e longe da indústria farmacêutica.


Quando escrevo que leite materno é melhor que leite artificial, não é para gerar brigas desnecessárias. É apenas para que mães acreditem em si e, consequentemente, para que bebês se beneficiem da amamentação. Relativizar a importância do leite materno, do parto, da alimentação saudável, do brincar livre apenas potencializa o poder da mídia e os lucros das corporações. Dada a realidade de cada família, a individualidade de cada mãe e a necessidade de cada bebê, não podemos descartar assuntos essenciais que beneficiam seres humanos em prol da manutenção da nossa zona de conforto. Mudar é desconfortável mesmo. Fazer escolhas conscientes implica em arcar com riscos e consequências. Questionar informações naturalizadas na sociedade é ir contra todo um sistema poderoso que, certamente, não visa o nosso bem estar. Jamais podemos desrespeitar ou ferir o outro, mas é nosso dever lutar por um mundo melhor para os nossos filhos, para nós e para o meio ambiente. 


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